E chega o momento de fechar o ciclo dos vinhos brasileiros, das regiões mais importantes e com volumes de produção sensíveis, os outros quase vinte novos polos vitícolas ficarão para um momento ulterior.

O Vale do Rio São Francisco, englobando vinhedos na fronteira entre Bahia e Pernambuco, faz parte de um contexto à parte em matéria de terroir, estando inserido no conceito de viticultura tropical, que tem por sua vez se transformado num grande objeto de estudos por autoridades em vitivinicultura mundial, exigindo técnicas de cultivo antes inexploradas quando se pensa em produção vinícola voltada para o comércio internacional.

Trata-se antes de tudo, de uma nova geografia pedoclimática que se desenha no cultivo de videiras (perfis de solos e climas diferentes dos outrora “recomendados”, sempre relacionados a climas temperados). O processo de formação dos solos, conhecido como pedogênese, é bastante diferente sobretudo em termos de velocidade, sob climas temperados e tropicais, sendo que nesse último o ciclo vital da terra é acelerado (a rocha-mãe se decompõe mais rápido, formando partículas menores que se compactam e erodem com mais facilidade em relação a um clima menos quente). A terra, o solo, também nasce, atinge a maturidade e morre.

Mais, conforme já mencionei e publiquei em dois textos anteriores (sobre viticultura tropical) temos certos modelos de vinificação nos trópicos que configuram um novo estilo de vinho, apoiados num conceito chamado “just-in-time quality”: vinhos de ciclos curtíssimos entre produção e aptidão para o consumo.

Foto: site viticultura.org.br

Foto: site viticultura.org.br

Obviamente, nós brasileiros conhecemos bem outro ponto crucial da região: índices altíssimos de calor e forte seca, que influenciam decisivamente nos modos de condução dos vinhedos. Inclusive a condução em latada não é incomum porque pode proteger as uvas do excesso de raios solares. Umidade e amplitude térmica, parâmetros fundamentais de caracterização de áreas vitícolas encerram uma singularidade, que pode pender para o bem ou para o mal se não corretamente interpretadas.

Todas as escolhas podem ser úteis ou fatais: seleção de clones, castas, modo de condução, enxertos, irrigação e outros. Por enquanto se pode abraçar, aqui também, a tese da “vinificação no limite” (winemaking on the edge), criada pelo MW Evan Goldstein.

Por todo o acima exposto, dentro de tantas variabilidades, podemos entender por que grandes experts se debruçam e buscam as melhores condições possíveis para que se possa justificar o “vinho dos trópicos” como um novo personagem da geoviticultura mundial. Para descontrair, poderia afirmar que o conhecimento atual permitirá que não marginalizemos os países que não gozam de climas temperados, tratando-os como se não passassem de desprivilegiados, adeptos de algum “movimento-dos-sem-terroir”!

Foto: Ibravin

Foto: Ibravin

A caracterização deste nicho tropical é complexa: o Vale do São Francisco se divide climaticamente em dois perfis, um primeiro considerado no período de janeiro a junho. Outro, tão quente quanto, mas com amplitude térmica ligeiramente maior e muito mais seco, de julho a dezembro. A região possui o mais alto índice de insolação dentre todas as áreas vitícolas do planeta e os valores entre as “duas estações” não difere muito. Ambos vivem também regimes de noites quentes, o que pode perturbar um pouco a síntese de precursores aromáticos de certas variedades. Até junho o clima é moderadamente seco, após julho fica bastante árido.

Por isso, há em geral duas colheitas anuais, de castas diferentes e com diferentes aptidões em termos de estilos de vinho e isso é típico da região!

Foto: Wine Run - Revista Adega

Foto: Wine Run – Revista Adega

Muitas castas viníferas são exploradas, todavia em meio a um mar de Vitis labruscas lá plantadas (para serem consumidas como uvas de mesa ou para sucos), com destaque sem dúvida para a Syrah entre as tintas e a branca Moscatel, muito explorada nos espumantes doces, que dominam a produção de vinhos finos e são favorecidos pelo estilo “fácil de beber” com ritmo de elaboração quase contínuo ao longo do ano (o just-in-time).

Área de poucas vinícolas, como a Vinícola Ouro Verde (projeto do Grupo Miolo) seus vinhos devem ser entendidos dentro deste contexto novo do panorama geral da enologia, que ainda se encontra sob estudos criteriosos, porém sabe bem quais os limites possíveis desta envergadura de qualidade que esta nova modalidade, a vitivinicultura tropical, poderá ou não permitir.

Os consumidores esclarecidos esperam vinhos, que mesmo num contexto de simplicidade, sejam transparentes e minimamente manipulados, evitando-se os tratamentos mais óbvios como a acidificação por exemplo, carência maior de uvas sob insolação inclemente.

Conforme citado nos meus textos pregressos, a viticultura tropical tem prós e contras, afinal está mesmo “no limite”, porém o futuro não é sombrio e não devemos deixar de ter em mente, que há um novo estilo de vinho nascente, muito provavelmente com melhor potencial comercial do que vislumbrando um padrão qualitativo que rivalize com vinhos de alta gama de regiões temperadas. E isso não é defeito, é uma opção vocacional que a versatilidade do vinho contempla sem preconceitos!

Saúde!