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Quem viu este filme sobre o famoso Julgamento de Paris de 1976, viu também uma estranha dicotomia em que os nomes que dão título à película em português e em inglês parecem firmar ênfases totalmente diferentes.

Em português o foco é no resultado da degustação, enquanto curiosamente diga-se, na versão original em inglês o ponto nevrálgico parece ser o fenômeno de oxidação do Chardonnay Montelena que levou Jim Barrett às raias da loucura!
No filme, um lote do Château Montelena 1973, após o engarrafamento, prestes a tomar assento no voo para Paris se vê subitamente “amarronzado” porém sem perder nenhuma de suas ótimas características organolépticas. O que poderia ter havido?

Bottle Schock

Bottle Shock

No próprio filme, um técnico-enólogo da Universidade da Califórnia Davis responde a Bo, filho de Jim, que embora muito raro, aquilo era um fenômeno passageiro, de natureza enzimática e que se dava em vinificações fortemente redutivas (parêntese meu: muito mais aos moldes da elaboração de vinhos de Sauvignon e não Chardonnay).

Isso me deixou cheio de curiosidade e a cada leitura técnica que eu fazia depois disso eu pensava que possível explicação seria mais plausível. Encontrei mais de uma hipótese razoável, todavia uma delas se tratava de um verdadeiro fenômeno de oxidação e escurecimento de mostos (e não do vinho pronto como no cinema), devido a carências de substâncias que são particulares a cada tipo de uva, no caso, deficiência de glutationa, fator antioxidante dos vinhos brancos, comparável ao papel dos fenóis dos tintos (taninos e antocianos).

A segunda e mais consistente hipótese é conhecida em inglês como “pinking” e em francês (minha fonte) como “rosissement oxydatif”, algo como “rosar oxidativo”, ou seja, na verdade o vinho se tornaria com nuances rosadas ou acinzentadas e não marrom.

Lembrando que a safra do Montelena é 1973 e o “Pinking” foi descrito no início dos anos 70 e em 77 criou-se o primeiro método de laboratório para avaliar a suscetibilidade de uma amostra de vinho a esse fenômeno.

Fenômeno Pinking

Fenômeno Pinking

Este “acidente” enológico acontece quando o vinho é submetido a um pequeno estresse oxidativo durante os tratamentos de estabilização e/ou ao momento do engarrafamento. Os compostos químicos envolvidos permanecem mal conhecidos mas sabe-se que devem ser de natureza fenólica e que ao contrário dos antioxidantes dos tintos (antocianos) eles não são afetados nem por adição de anidrido sulfuroso (SO2 – antioxidante) e nem se modificam em função do pH e que também perdem essa cor rosa-acinzentada quando expostos à luz. Se os vinhos não saírem das caixas essa coloração pode atenuar ou mesmo desaparecer espontaneamente após algumas semanas ou meses.

Todavia, de acordo com especialistas, esse problema pode levar a litígios comerciais! Não há dúvidas que isso causaria muito estranhamento e recusas por parte dos distribuidores, não?

Château Montelena Chardonnay (fonte: montelena.com)

Château Montelena Chardonnay (fonte: montelena.com)

O tratamento preventivo é muito simples, sobretudo se falando de Chardonnay: o amadurecimento do vinho na presença das borras, o método “sur lies”, reduz substancialmente a sensibilidade destes vinhos ao fenômeno pinking. E depois, logo antes do engarrafamento a adição de ácido ascórbico (desde que associado ao SO2) soluciona o caso também!

Infelizmente não consigo de maneira alguma encontrar os dados de vinificação do Montelena Chardonnay 73, isso poderia fazer com que se fechasse esse quebra-cabeças, mas para aguçar a curiosidade já valeu a pena!

Eu não estou confirmando o diagnóstico, mas nem por isso eu deixaria de dividir com vocês a minha inquietação, entremeada de paixão! E isso, todos temos, tenho certeza!

Assistam o filme ou o revejam!

Santé!