(fonte:http://www.dinvinguide.se/)

Com cerca de 950 hectares de área dos quais 902 ha são produtivos (entre 37 e 42 hl/ha), Tavel é uma AOC (Appellation d’Origine Contrôlée, concedida em 1936) do sul do Rhône, em sua margem direita, a 15 km a noroeste de Avignon. E, embora os rosés da Provence seja mais conhecidos, como esta região faz tintos como o Château Vannières em Bandol, bem como brancos, isso deixa Tavel como única região AC a produzir apenas vinhos rosés.

(fonte: mowse.blogspot.com.br)

A produção média anual é de cerca de 5 milhões de garrafas, das quais 75% são destinadas ao próprio mercado francês; os principais países importadores são os Estados Unidos, Canadá e Bélgica.

Relíquias romanas atestam a presença do vinho na região desde o século V a.C., que ganhou destaque desde a Idade Média. Eram os vinhos favoritos de muita gente famosa, como o rei Filipe o Belo e Luís XIV, os papas de Avignon, Balzac, Hemingway e outros. Apesar de seu corpo, como todo rosé, o Tavel não se presta à guarda, devendo ser consumido ainda jovem, no prazo de 2-3 anos, com raras exceções (boas safras).

SOLOS

Os três tipos principais de solo em Tavel são o arenoso, os seixos e o calcário xistoso.

(fonte: mowse.blogspot.com.br)

Os vinhedos em solo arenoso (acima) datados das épocas Miocena e Pliocena são os originais da região. O mar, que cobria a região na época Cretácea, voltou e deixou finos depósitos de areia – não a areia encontrada numa praia, mas calcário moído – misturada com um pouco de argila. É carente de matéria orgânica e tem apenas 30-60 cm de profundidade  antes de encontrar o leito rochoso. Vinhos feitos com uvas desse solo são mais elegantes do que os dos outros, com menos teor alcoólico e a maior produção por hectare da AOC Tavel.

(fonte: mowse.blogspot.com.br)

Os seixos (chamados na região de galets roulés ou pedras rolantes) constituem um dos solos com maior impacto visual de Tavel. São pedras de rio – geralmente quartzito – levadas pelo Rhône há milhares de anos, remanescentes das geleiras alpinas. As pedras acumulam calor durante o dia e mantém as videiras aquecidas à noite, apressando seu amadurecimento. É um solo difícil para se trabalhar. Os vinhos desse solo têm sabor mais intenso, boa estrutura, teor alcoólico mais pronunciado.

(fonte: mowse.blogspot.com.br)

O terceiro tipo de solo, chamado de lauses, é formado por calcário quebradiço e placas de xisto, pedra com belas variações de cor que costumam ser usadas na construção civil. É a área mais árida (com 300 ha) e a mais pobre, com pouca água, levando as videiras a buscarem nutrientes em profundidade. Suas videiras têm produção baixa e os vinhos mostram aromas mais frutados, finesse e intensas características minerais.

CLIMA

O clima é mediterrâneo, com verão quente e seco (média de 22 ºC), inverno moderado (média de 7,3 ºC) e recebe uma média de 2.700 horas de sol por ano.

(fonte: http://meteofarlede.free.fr/)

O vento predominante é o Mistral, que com o Tramontano ameniza os extremos do verão e do inverno e sopra do norte para o sul. O Mistral começa sua jornada pelo Rhône com o nome de Bise (gerando um ditado no folclore local, avec la Bise, lave ta chemise) e sopra durante uns 160 dias por ano; em 100 deles, chega a mais de 60 km/h. Ele e o Tramontano limpam a atmosfera e secam folhas e cachos de uvas após as chuvas de verão.

A precipitação média é de 700 mm, sendo cerca de 200 mm no verão e 500 mm no resto do ano. Com a alta drenagem dos solos da região, a umidade penetra pela argila ou mesmo por fissuras do leito rochoso, obrigando as raízes a buscar água em locais profundos.

UVAS

As principais uvas de Tavel são a Grenache e a Cinsaut, com a Syrah e a Mourvèdre permitidas após 1969; no total, são permitidas nove variedades no corte, inclusive Picpoul, Bourboulenc, Clairette, Calitor e Carignan.

Grenache (fonte: wikimedia.org)

Cinsaut (fonte: http://www.lodiwine.com)

 

Pela legislação, as primeiras são consideradas principais, e a Calitor e a Carignan, acessórias. Seu uso deve ser o seguinte: (a) Grenache deve ser superior a 30% e inferior a 60%; (b) cada variedade principal deve ser menor ou igual a 60% do corte; (c) cada variedade acessória deve ser menor ou igual a 10% do corte.

A Grenache contribui com equilíbrio, corpo e caráter frutado; a Cinsaut, elegância aromática; a Syrah, tempero e frutas vermelhas intensas; a Mourvèdre, cor, frescor, estrutura e potencial de guarda; a Clairette, untuosidade, toques florais e de frutas secas; a Bourboulenc, toques florais; a Carignan, tanino, cor, fruta, elegância e certo amargor; a Picpoul, finesse e toques florais; a Calitor é extremamente rara, uma uva de baixa acidez.

PRODUÇÃO

Há vários métodos para se produzir rosés: o mais comum é a maceração curta (em geral, a maceração carbônica), na qual as uvas tintas ficam macerando sob seu próprio peso no suco durante algum tempo (entre 2 e 20 horas; quanto mais tempo, mais intensa a coloração do vinho. A título de comparação, os tintos ficam dias ou semanas em contato com as cascas). A temperatura de fermentação é baixa, entre 15 e 20 ºC.

(fonte: winefolly.com)

Noutro método, misturam-se uvas brancas e pequena quantidade de uvas tintas, que são fermentadas juntas. É pouco usado porque acarreta dificuldade no controle do resultado.

Um terceiro é o de corte de vinhos tintos (cerca de 5%) e brancos já elaborados: é como se fazem os Champagnes rosés.

(fonte: provencewineusa.com)

Outro seria a sangria, que produz vinhos com mais corpo e cor: a sangria consiste na retirada de parte do líquido do fundo do tanque nas primeiras horas da elaboração dos vinhos tintos e antes da fermentação, para concentrar a presença dos componentes sólidos (que sobem ao topo do tanque) das uvas esmagadas (polpa, cascas) e assim obter vinhos mais encorpados.

Método de sangria ou saignée (fonte: http://www.wineguy.co.nz)

O líquido da sangria é rosado, com pequena presença de cor e tanino, resultantes da maceração das cascas. São raros por causa do método de produção. Não se faz a fermentação malolática para se preservar o frescor.

Embora em Tavel o rosé possa ser feito tanto pela sangria quanto pela maceração, a tradição da região consiste em um tipo de cofermentação com uvas brancas e tintas, combinando elementos dos dois métodos. Juntas, as uvas são carregadas em cachos inteiros num tanque onde são prensadas sob seu próprio peso e o suco escorre para o fundo. Ali, fica em breve contato com as cascas tintas antes da drenagem, como a sangria, com a fermentação posterior.

PERFIL DOS VINHOS

Secos e com mais corpo e estrutura do que a maioria dos rosés, têm mais álcool e menos acidez, o que os distingue nitidamente de outros vinhos do tipo. Os aromas de frutas de verão cedem lugar a notas de frutas secas com o tempo. Pela legislação, o limite de teor alcoólico é de 13,5%.

Cores de Tavel (fonte:winefolly.com)

Classicamente, uma descrição aproximada de seu perfil organoléptico seria: coloração rosa claro que evolui ao acobreado, aromas de frutas vermelhas silvestres, drupas (abricots, damascos, pêssegos), algumas vezes sublinhados por notas de amêndoas frescas. Após um ano de guarda costuma exibir frutas bem maduras, amêndoas tostadas e especiarias (alcaçuz). Compatível com sua técnica de vinificação, deve ser de paladar macio e frutado, especiado e de boa persistência.

Jancis Robinson e Hugh Johnson dizem, em seu Atlas mundial do vinho, que os rosés de Tavel devem ser bebidos antes que apareça a coloração alaranjada que ganham com o tempo.

Numa loja dos EUA, os preços de rosés Tavel oscilaram entre US$17 e US$29, mais ou menos a mesma faixa de preços dos rosé de Provence. Infelizmente, no Brasil raramente os Tavel chegam às lojas em boas condições de serviço: apenas na Mistral encontrei um Tavel, o Beaurevoir 2012, por R$132.