A lista da Open Table com os 100 Restaurantes mais românticos dos EUA

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Lá eles têm esse negócio de Valentine’s Day, o Dia dos Namorados deles, que começou em Roma, mas 14 de fevereiro só virou “oficial” – como dia de S. Valentim – por decreto do Papa Gelásio, no final do século 5.

O site Open Table fez uma lista bem interessante com os restaurantes mais românticos dos EUA, que obviamente serão os procurados nesse dia.

Curioso? Espia aqui

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ATRIZES COADJUVANTES: PINOT MEUNIER E PETIT VERDOT

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Conhecidas pelo papel de atrizes secundárias em cortes – a Pinot Meunier em Champagne e a Petit Verdot em Bordeaux – estas uvas têm méritos próprios, embora pouco conhecidos.

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Pinot Meunier

Também chamada apenas de Meunier (a palavra significa “moleiro” em francês e remete às folhas das parreiras dessa uva, que parecem revestidas de farinha; a italiana Molinara tem a mesma origem), essa uva tinta já foi considerada – erroneamente – uma mutação da Pinot Noir.hush_heath-pinot-meunier

A aparência das folhas explica alguns de seus sinônimos, como Farineux ou Noirin Enfariné na França e Dusty Miller na Inglaterra. Aqui, é cultivada em 65 hectares: os espumantes ingleses têm ganhado projeção buscando replicar o champanhe, inclusive no corte, aliando a Meunier à Pinot Noir e à Chardonnay.

A França conta com mais de 11.000 hectares de Pinot Meunier. Isso faz dela a segunda uva mais plantada em Champagne – em Marne, dois terços dos vinhedos são de Meunier – abaixo apenas da Pinot Noir. Floresce depois desta, mas amadurece antes, tornando-a menos sujeita a geadas, atributos interessantes para os produtores de Champagne: é colhida antes que as chuvas de outono levem o perigo da podridão aos cachos.

A Pinot Meunier aporta aromas frutados desde cedo, com maciez e volume, o que é excelente para vinhos que são consumidos ainda jovens. É um pouco mais ácida do que a Pinot Noir, aportando um toque fresco e especiado ao vinho. Entretanto, não envelhece bem, e muitos consideram a Pinot Meunier menos elegante do que suas colegas de corte. A maison Krug, porém, inclui-a em seus cortes. Outras casas de champanhe que se valem da Meunier são a Charles Heidsieck, a Laurent Perrier, a Egly-Ouriet e a Billecart-Salmon, além da Jaquesson e da Armand de Brignac.

Prova disso é um artigo de 2012 de Scott Claffee no site terroirist.com, mencionando conversas com Peter Liem, crítico estabelecido em Champagne. Este afirma, em 2008, que a Meunier é prestigiada pelos viticultores mais jovens. Claffee cita o importador Terry Theise, que endossa Liem e diz que “muitos produtores, especialmente, mas não exclusivamente, os mais jovens, descobriram o potencial de vinhas velhas de Pinot Meunier. É uma variedade que produz resultados deliciosos se plantada num local decente e tratada com respeito”.

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Atualmente, é possível encontrar alguns champanhes produzidos exclusivamente com a Meunier, como a Egly-Ouriet Brut Les Vignes de Vrigny. Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia também produzem espumantes com Pinot Meunier; na Austrália, é até vinificada em tinto, com certo potencial de guarda.

PETIT VERDOT

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Antes incluída no grupo ampelográfico Carmenet, do qual fazem parte, entre outras, suas colegas de corte bordalês (Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Merlot), a Petit Verdot faz, na verdade, parte do grupo que inclui a Ardonnet e a Gros Verdot.

O nome da Petit Verdot deve-se ao tamanho de suas uvas (petit, pequenas) e a seu amadurecimento (vert): a floração é precoce, mas amadurece tarde, após até a Cabernet Sauvignon. Isso a torna pouco prática em Saint Émilion e Pomerol, mas no Médoc e particularmente em Margaux, encontra condições apropriadas para seu caráter: seus vinhos são intensos, de coloração acentuada, tânicos e bons para guarda, especiados, com equilíbrio entre acidez e álcool.

Ao corte bordalês, empresta cor, estrutura e um agradável toque floral de violetas. Nessa região, alguns vinhos valem-se de percentuais generosos da variedade, como Margaux, Palmer e Pichon Lalande.

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Aliás, no século 19, o Château Margaux tinha 30 por cento dos vinhedos plantados com Petit Verdot; em tempos recentes, porém, Paul Pontallier – enólogo e diretor dessa maison, falecido em março de 2016 – disse que não queria mais do que 10 por cento dessa cultivar em seu vinho.

Além da França, é encontrada em cortes ou in purezza na Itália, Nova Zelândia, África do Sul, Espanha, Portugal, Estados Unidos, Argentina, Uruguai e Austrália, entre outros.

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É encontrada em voo solo no Château Haut Barade, um Bordeaux Supérieur AOP, no Tomero argentino, no espanhol Uva Pirata, entre muitos outros.

O fim da flute

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Em artigo recentemente publicado na Decanter e traduzido por um de nossos escribas para o site www.artwine.com.br, comentou-se que a tradicional taça esguia para espumantes em geral está com seus dias contados.

De fato, a comprovar a tendência, em evento recente em São Paulo, a Dom Pérignon promoveu a degustação de três champanhes em uma taça encomendada especialmente à Spiegelau, apropriada particularmente aos seus champanhes Vintage e P2: a Authentis.


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Segundo o Chef de Cave da maison, Richard Geoffroy, “graças ao bojo levemente corpulento dessa taça, libera-se uma gama completa de aromas quando o vinho entra em contato com o ar, amplificando sua complexidade. A boca da taça se encurva suavemente para concentrar os aromas e revelá-los melhor ao nariz do degustador”.

Um artigo bem recente de nosso amigo Nelson Pereira endossa a tendência. Resta ver se a reação dos frequentadores de restaurantes e de eventos será favorável à mudança…

A abelha do abridor

Dentre os enófilos, poucos acessórios despertam tanto interesse quanto os abridores Laguiole (lê-se laióle). A qualidade do aço produzido na cidade – ou a coragem dos soldados de lá, segundo a lenda – teria despertado o interesse de Napoleão.

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O imperador gostava de usar como símbolo a abelha, que Carlos Magno adotara, a fim de estabelecer um vínculo com a antiga coroa carolíngia. E assim, teria autorizado os produtores de Laguiole a usarem a abelha em seus produtos.

Por outro lado, a abelha só começou a ser colocada na cutelaria de Laguiole após a Segunda Guerra Mundial… o que talvez afaste a hipótese romântica da concessão napoleônica.

Qualquer que seja a origem da abelha, o fato é que os abridores Laguiole usam aço de excelente qualidade, e a espiral tem um sulco que aumenta a aderência na rolha. Alguns – como o Beaumard Grand Cru da ilustração – custam uma pequena fortuna: mais de 700 dólares.

Outro detalhe importante é que, embora não tenham a alavanca dupla da maioria dos abridores de qualidade, o abridor Laguiole vale-se de uma alavanca mais longa, permitindo a abertura de rolhas mais longas sem ter de mudar o apoio. thumb

 

BAR A CHAMPAGNE: FRANÇOISE BEDEL

De volta ao Brasil, depois de uns dias na França e nada como uma boa viagem para renovar ideias e relatar grandes experiências! Uma das melhores foi sem dúvida conhecer, enfim, o Bar a Champagne Le Dokhan’s, no térreo do Hotel Radisson Blu, no 16eme arrondissement, Trocadéro, em Paris.

Há vários menus-degustação de Champagnes, geralmente compostos de três vinhos, além da possibilidade de escolha de um ou muitos Champagnes específicos dentro de uma vasta carta, com grandes nomes, consagrados pelo tempo e grandeza ou pelo terroir e suas particularidades.

Não esqueçam de pedir um acompanhamento, como um prato de queijos sortidos, de petiscos da terra, do mar ou de acentos orientais. O gougère, “pão de queijo” francês, é cortesia.
No meu caso, escolhi a degustação “do dia”, a mais básica (30 Euros/pessoa e que muda periodicamente), composta de três vinhos do produtor (no caso, produtora) Françoise Bedel, seguidores de preceitos biodinâmicos.

Para minha felicidade e espanto, após perguntar informações sobre o que nos seria servido, obtive a resposta de que o próprio vigneron (Vincent, filho de Françoise) estaria presente para comentar a sequência! E assim foi.

A singularidade em questão era a dominância da Pinot Meunier, que compõe 78% de todos os 8,4 hectares da propriedade familiar no Vale do Marne. Outros 13% são de Chardonnay e 9% de Pinot Noir. Desde 1999 utilizam os preceitos da biodinâmica e incluindo a observação do calendário lunar de Maria Thun, condicionando as atividades enológicas às fases da lua.

A família produz de 30-50 mil garrafas por ano, com preços que variam de 30 a 50 euros por garrafa, de acordo com Vincent.
Bem, o que interessa é o que se degusta.

Os Champagnes foram:

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Origin’elle Brut 2011
A fórmula varia ano a ano e nessa safra o percentual de Pinot Meunier foi de 75%. A variedade traz de fato suas marcas, como o “rondeur” que talvez possa ser traduzida por uma espécie de “lapidação textural” e ótima expressão de fruta, além de frescor.
Amarelo-palha, bom perlage, bolhas muito finas.
Fresco, elegante, frutado a cítricos e frutas vermelhas, aromas de panificação, frutas secas em segundo plano, leve floral e boca redonda, espumatização agradável e persistência média.
É a Cuvée de apresentação da família!
Terroir: solos de argila, aluvional e marga sobre base calcárea.
Recomendações gastronômicas: aperitivo, entradas à base de salmão, crustáceos ou legumes.

DisVinSecret

Dis, Vin Secret 2006
Aqui temos uvas, na maioria delas, colhidas em 2006, sendo 95% da Pinot Meunier e 5% de Chardonnay. Champagne rico, sem perder a elegância, gastronômico.
Amarelo-palha de média intensidade, bom perlage, bolhas muito finas e persistentes.
Aromas frutados, com mais presença de frutas secas, amêndoas, manteiga, geleia de mirabelles, frutas vermelhas silvestres, notas de fermento e um pequeno toque de mel.
Conjunto elegante, equilibrado e fresco, final de boa persistência com delicados aromas terrosos. C’est super!
Terroir com solos em que a argila está ausente.
Recomendações gastronômicas: aves ao forno com molhos delicados, pratos agridoces.

EntreCiel&Terre

Entre Ciel & Terre 2005 (majoritariamente)
A última Cuvée da sequência tem 60% de Pinot Meunier, 30% de Chardonnay e 10% de Pinot Noir. Mineralidade é a palavra-chave de sua degustação.
Coloração amarelo-palha de média intensidade, ótimo perlage, bolhinhas muito finas e persistentes.
Aromas de pequenas frutas vermelhas, cítricos, pão levemente tostado e mel.
No palato a mineralidade e a acidez se fundem em potência, causando auqlea sensação de sapidez e salinidade típicos. Mousse cremosa, aromas frutados e boa persistência com toques levemente iodados ao final. Possivelmente, em termos de terroir, é o mais “transparente” de todos.
Terroir de argilas e margas sobre base calcárea.
Recomendações gastronômicas: peixes, sushis e frutos do mar.

Finalizando, o local é de decoração clássica, em ambiente quente e acolhedor, serviço muito bom, simpático, com taças adequadas, vale a pena a visita! O custo foi de 74 euros, menos de R$170 por pessoa, bastante atraente pelo nível geral propiciado.
Altamente recomendável! Santé!

Casa Lapostolle

Não vai demorar para o pessoal da logística da Mistral pedir adicional de insalubridade ao Ciro Lilla, tantas têm sido as degustações dos últimos dias…

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Ontem, 26 de novembro, foi a vez de ouvirmos Charles-Henri de Bournet Marnier Lapostolle, que levou à cata quase tantos vinhos quanto as letras de seu nome.

 

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Como novidade, o Le Rosé 2014, um lançamento bem recebido, claramente inspirado nos rosés da Provence, seja na cor, seja na palheta aromática. Um corte de Syrah, Cabernet Franc e Carmenère em cultivo orgânico e biodinâmico, casca de cebola, floral, com frutas frescas e ótima acidez. Para beber sem acompanhamento ou com saladas, peito de peru ou figos.

Na sequência, três Sauvignon Blancs, preenchendo todas as faixas de preço: o D’Alamel Sauvignon Blanc 2013 (linha nova de entrada da casa), cítrico, com frutas brancas e um toque defumado que evoluiu na taça, com boa acidez e frescor; o Lapostolle Casa Sauvignon Blanc 2014, com 10% de Semillon no corte, com frutas tropicais, bom corpo, mais gastronômico e, para mim, a melhor relação preço-qualidade dos três; e o Cuvée Alexandre Sauvignon Blanc 2013, a linha haute de gamme da Lapostolle, mais elegante, com toques florais.

Os dois Merlot (D’Alamel e Lapostolle Casa, ambos 2013) foram interessantes, mas todos à mesa ficaram esperando aquele que é considerado um dos melhores Merlot da América do Sul, o Cuvée Alexandre Merlot. Nas taças, o primeiro já está pronto, um vinho focado, com fruta fresca ao nariz, e o segundo vai se beneficiar de tempo de guarda para domar os taninos.

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O Cuvée Alexandre Carménère 2011 tem 15% de Syrah, o que aparece na forma de especiarias e pimenta. Fruta vermelha madura, concentrado.

O Canto de Apalta 2011 – chamado por alguns de “Baby Apalta” – trouxe frutas vermelhas, chocolate e notas de couro.

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A degustação finalizou com o curioso – e para mim ainda desconhecido – Borobo 2011, com a exótica combinação de Syrah, CS, Carménère, Merlot e – uai – Pinot Noir. Essas uvas explicam o seu nome, também exótico, que são as primeiras letras de BOrdeaux, ROne (sem o h) e BOrgonha. Cereja, especiarias, bela complexidade e bom corpo, os 15% de álcool bem apoiados na acidez, com bela estrutura. A Wine Spectator deu-lhe 93 pontos; fui um tico mais generoso.

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Degustação à linha do tempo

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O tempo! Ah, o tempo. Se pararmos para discutir sua influência sobre o nosso processo de conhecimento, é provável que nos invada uma desoladora sensação de que o desperdiçamos.

O psicólogo francês Jean-Marie Guyau (“A gênese da ideia de tempo”, Paris – 1890) argumentou que o tempo não devia ser visto como condição anterior e sim, como consequência da nossa experiência do mundo, resultado de longa evolução.

Portanto nada como perceber e lhe atribuir valor usando nossas capacidades potenciais de nos relacionar com objetos que mais do que nós mesmos, transcendem a linha do tempo. Por exemplo, um vinho da safra de 1915 (para quem se atém a detalhes, um Vega-Sicilia Único)! E foi com base nessa vivência única, não protagonizada por mim, mas pela bela e fera sommelière Gabriela Monteleone, que surgiu a ideia para este texto.

Afinal, o que esperar de um vinho de cem anos? Sob que véu de conhecimento devemos nos colocar a fim de compreender as mensagens que tal garrafa pode proporcionar? A eloquência deste vinho faria mais sentido ao seu pretérito ou ao seu futuro, dos quais somos julgadores?

O QUE SERIA O VINHO EM 1915?

Vinho era e sempre será um fermentado de suco de uvas sadias e maduras, mas simplesmente certas práticas, hoje correntes, eram se não desconhecidas, totalmente aleatórias, tais como a fermentação malolática (estudada e esclarecida na década de 1950 mas só popularizada mais de vinte anos após), a noção global de maturidade em todas as suas nuances, a formação de compostos voláteis em função da atividade microbiana (conhecimento que habitava as universidades, mas não alcançavam o campo de modo consistente) entre outros.

O que isso significa afinal? Um trabalho bordalês da década de 70 analisou 76 vinhos de diversos períodos históricos e para focar no nosso alvo, de 12 amostras de vinhos de safras que iam de 1906 a 1931. Tínhamos uma tabela demonstrando valores mais altos de acidez total, acidez volátil, anidrido sulfuroso, ácido málico e açúcar, quando comparados com amostras que datavam de 1934 até 1972! O único item numericamente inferior, como deveríamos esperar pelo acima exposto, é o grau alcoólico!

Para bom degustador, meio grama por litro basta! Nas entrelinhas podemos verificar que em relação aos padrões modernos, mesmo os grandes vinhos do século passado ostentavam sinais de menor maturação (uvas colhidas antes do tempo para evitar doenças das videiras), de maior saturação málica (excesso de ácido málico em relação ao tartárico, mais suscetíveis aos vieses climáticos, que às vezes determinam “safras málicas”), menor sensibilidade e critério no uso do SO2 e por fim, uma fermentação interrompida sem que houvesse o esgotamento de açúcares residuais, não por acaso, aporte nutricional favorito das bactérias que geram desvios aromáticos, tal como a acidez volátil.

A HISTÓRIA POR TRÁS DA HISTÓRIA

Em 1866, Louis Pasteur finalmente demonstra (mesmo em meio a ceticismo de alguns) algumas “doenças” do vinho, provocadas por microorganismos ainda menores do que as leveduras, as bactérias. Ele nota que elas se alimentam de açúcares, glicerol e ácido tartárico (não se ateve ao ácido málico). De forma categórica, Pasteur afirma que “as leveduras fazem o vinho, as bactérias o destroem”!

Todavia alguns pesquisadores suíços e alemães, menos célebres que Pasteur, notaram que certas bactérias degradavam o ácido málico e corajosamente, supuseram que poderiam ser benéficas e não degradantes do vinho.

O alemão Heinrich Hermann Robert Koch, conhecido pela descoberta do bacilo de Koch (tuberculose), cientista e microbiologista que era, também afirmou em 1900 que certas bactérias capazes de decompor o ácido málico, eram “fermentos” (linguagem da época) melhoradores e não fermentos causadores de doenças.

Koch não encontrou eco senão por devotados e geniais pesquisadores bordaleses, como Émile Peynaud e sobretudo Ulysse Gayon, que em 1905 descreveu observações analíticas sobre duas cubas de fermentação da safra de 1896, registrando em números concretos, uma desacidificação brutal e elevação da acidez volátil, justificando uma estabilização do vinho por sulfitagem (SO2).

Mas mesmo por caminhos certos, as conclusões ainda não foram as que abririam as portas da expertise atual. Gayon interpretou o fenômeno de modo incorreto, acreditando que a fase pós-fermentação alcoólica fosse o sinal de uma “janela patológica” dos vinhos, a ser evitada com uso imperativo de SO2. Hoje sabemos que precisamos de mais atenção do que pavor nessa hora.

Interrompendo a história, deixemos a ideia mais importante resultante dessa visão ainda borrada da ciência enológica à esta época: o que deve povoar a mente do degustador do terceiro milênio é o fato de que a acidez total elevada (da ordem de 6,4g/L) era vangloriada de ser um fator de longevidade dos grandes vinhos tintos (quem quiser saber como essa história evolui no tempo, favor ler meu texto sobre “A acidez e seus mitos”).

A propósito e sem mais delongas, hoje em dia o grande fator de bom envelhecimento de um vinho tinto é sua estrutura tânica.

Quando o açúcar se esvai, a molécula que torna o vinho mais instável é o ácido málico. Os defeitos mais graves observados no passado eram a turvação e desprendimento gasoso.

ACIDEZ VOLÁTIL: VINAGRINHO

Se existe um parâmetro analítico do qual a enologia vem ao longo do tempo exercendo um padrão de tolerância zero é a acidez volátil. Esta volatilização se dá por reações químicas de degradação de alguns componentes fundamentais do vinho, principalmente os açúcares e o seu principal representante químico é o acetato de etila, mas também ácido acético e outros ácidos voláteis.

Pequeno adendo: os valores “normais” hoje admitidos são de 0,88g/L (expressos como na França em equivalente de ácido sulfúrico, que para facilitar vou manter aqui).

Mais do que vomitar didatismos aqui, o que desejo compartilhar são curiosidades históricas, sobretudo em função das leis de tolerância ao “defeito” que em língua portuguesa, já teve conotação não depreciativa, denominado com apreço, de “vinagrinho”!

Esta singela afeição, outrora até mesmo recomendada por grandes estudiosos porque seria um fator de melhora da expressão do bouquet, vem sendo tratada paulatinamente a chutes e pontapés, senão vejamos o que diziam enfim, as leis que regem o controle da qualidade geral dos vinhos: até 1930 as exigências eram de que o valor não ultrapassasse o, hoje ridículo, teor máximo de 2,3g/L (absurdamente alto)! Á partir de 1930 o valor foi rebaixado para 1,2g/L no máximo.

Émile Peynaud preconizava que não se passasse de 0,4g/L, sendo que vários testes de degustação demonstram que valores acima de 0,6g/L já são perceptíveis, embora tal como nos valores de teor alcoólico, para uma mesma concentração de acidez volátil, um vinho mais “magro” parecerá muito mais alterado do que um vinho rico em extrato e estrutura geral. Amigos meus, produtores de vinhos, declaram com plena certeza estarem diante de um vinagre, com valor acima de 0,6g/L. Seus narizes são muito bem treinados!

Para que tenhamos uma ideia, a tabela dos 76 vinhos do estudo bordalês, mostravam uma média de 0,77g/L para os vinhos compreendidos entre as safras de 1906 e 1931. Nos vinhos mais jovens de então a média era de 0,42g/L. Atualmente estes valores são ainda um pouco inferiores.

ANÁLISE QUÍMICA DE VINHOS DE OUTRORA

Só para ilustrar, ao longo de sessenta safras, considerando os valores extremos mínimos e máximos, as concentrações de álcool titulável foram de respectivamente 10 e 12,7%. Isso nas entrelinhas implica em que certamente a necessidade de chaptalização foi gradualmente se tornando desnecessária. E obviamente que se solidificou a possibilidade de colheita de uvas mais maduras, fruto de trabalhos de campo na proteção contra as doenças e intempéries climáticas.

A acidez total diminuiu com a variação de extremos oscilando entre 5,6g/L nos vinhos mais antigos para 3,4g/L nos vinhos mais jovens.

Aliás após os anos de 1950 vimos o avanço dos conhecimentos teóricos aliados a tecnologia, proporcionar vinhos mais estáveis, com menos defeitos graves e, cada vez mais, prevalência de “safras excepcionais”, não mais em função do clima, mas de práticas favoráveis à maturação das uvas que de alguma forma “ajudam” na otimização da influência climática sobre a qualidade geral das uvas.

Sim, o homem passou a “ajudar” a natureza e por isso nos dias atuais será muito menos provável que tenhamos algum adjetivo como “a safra do século” novamente. A incidência de colheitas de alta qualidade foi mesmo favorecida pelas mãos humanas e o avanço científico, sem que caiamos pelo amor dos deuses, na ladainha de crer que a tecnologia se distancia dos interesses da terra. Muito ao contrário, a enologia contemporânea se reaproxima da viticultura, ambas como braços de um conhecimento único e indissociável.

Santé!

 

 

 

 

VINHOS DAL PIZZOL

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A Dal Pizzol, empresa produtora de vinhos em Faria Lemos, distrito de Bento Gonçalves, é tida como uma precursora do conceito de vinícola-boutique, fato já publicado no livro “Wines of South America” do MW Evan Goldstein, no ano passado, que rendeu homenagens ao senhor Antonio Dal Pizzol, no capítulo dedicado ao Brasil.

Honestamente, não é o caso de se falar em vinhos espetaculares, não se trata de eufemismo vazio e sim, do reconhecimento de uma empresa, que com certeza faz o melhor possível dentro das possibilidades pedoclimáticas dos vinhedos brasileiros, que sofrem com as características de clima subtropical úmido ali presentes.

Uma vez que a enologia bem cumprida depende muito das mãos humanas, vemos que o trabalho da empresa é tão cuidadoso quanto possível, gerando vinhos de boa qualidade, que devemos sempre levar em conta que não podem ser tomados como uma mera tentativa de emulação de paradigmas europeus, portanto os vinhos que analiso (Ancelotta, Touriga Nacional, Sauvignon Blanc e Gamay) não devem apenas e tão somente serem pareados aos seus modelos d’além-mar!

Com exceção do Ancelotta, exemplo de vinho dos quais não possuo uma referência-modelo vinda do Velho Mundo e certamente a maioria dos enófilos também não, os demais sofrem do problema de sermos tentados a estabelecer um rígido critério de comparação de tipicidades.

Francamente (francófilo que sou), pouco me importa se são comparáveis aos vinhos originais, desde que possuam qualidades que os tornem agradáveis e adaptados às necessidades gastronômicas que temos, e nesse ponto, os vinhos são muito bem adaptados à nossa realidade, que é o que importa à maioria, o utilitarismo tem seu lugar quando desejamos pensar em opções boas e de custo razoável para o cotidiano, mesmo sob a imbecilidade com que estes vinhos são tratados pelo governo federal, que não é capaz de estimular o apreço devido aos produtos nacionais (aliás os planos para piorar a situação já foram decretados, como seria de se esperar desta república).

Como em muitos casos observamos, nosso terroir é capaz de produzir vinhos com uma tipicidade esperada, porém numa intensidade organoléptica inferior, ou seja, quero dizer que podemos reconhecer certos atributos de algumas castas europeias aqui plantadas, com uma potência menor.  Assim, um Touriga Nacional com notas frutadas e florais e um Sauvignon Blanc com seus aromas de tióis (vegetal e maracujá) são vislumbrados e cumprem suas funções harmônicas (enogastronomia) à despeito da possível e previsível comparação com outras nações produtoras. O que mais me interessa nestes vinhos são as suas respectivas capacidades de se casarem com pratos “possíveis”, e eles são capazes de satisfazer essa premissa.

Eu jamais esperaria de um vinho brasileiro uma potencialidade de se tornar um campeão de degustação, mas ao contrário, me satisfaço plenamente quando posso utilizá-los com sucesso nas harmonizações cotidianas e é para isso que deveriam ser feitos, eu creio!

Exemplo: no momento em que escrevo este texto fiz um “Polvo à Galega” e o Sauvignon Blanc Dal Pizzol foi para mim, tão perfeito quanto teria sido um Albariño Rías Baixas ou um Alvarinho português. Isso me basta!

Polvo à Galega

Polvo à Galega

Os vinhos do meu país, eu os quero acessíveis e adaptados ao meu dia-a-dia e em geral, eles assim o são, por isso me satisfaço! Sinto muita falta de vinhos para acompanhar meus pratos, minhas pizzas, meus sanduiches, minhas tentativas de fazer comidas de chefs! E o Brasil, graças a Deus, ainda me surpreende!

Os vinhos:

Sauvignon Blanc 2015: coloração adequada, límpido, amarelo-claro, com aromas de frutas tropicais e levíssimo toque vegetal, perfeitamente típico da casta, embora de intensidade média. Paladar muito fresco, graças à boa acidez, álcool bem equilibrado, corpo médio, frutado e de final de média persistência. Acompanha muito bem pratos de frutos do mar, com alguma picância, de preferência não excessivamente gordurosos, não obstante a boa acidez do vinho! Relembrando que no meu caso, um polvo grelhado, com páprica picante e acompanhado por batatas coradas com alho, foi o prato perfeito! O vinho, em função de seu grande frescor e predomínio de notas frutadas sobre os traços vegetais, se comportou como um Alvarinho/Albariño, casando-se muito bem com o prato.

Sauvignon Blanc 2015

Sauvignon Blanc 2015

Gamay-Beaujolais 2015: já havia provado safras anteriores e esse 2015, me parece um tanto diferente, embora muito bom. A uva Gamay nas mãos da Dal Pizzol mostra um pouco mais de complexidade do que o seu terroir de referência, aliando ás frutas e aromas florais, um toque de especiarias e tênue defumado, qualidades que lhe confeririam grande aptidão no acompanhamento de frios e embutidos, tal e qual seu antípoda francês. Um dos melhores desta variedade de uva, dentro do Brasil.

Touriga Nacional 2013: a grande casta portuguesa é rica em aromas de frutas e flores, normalmente de paladar intenso. Nosso exemplar nacional possui uma intensidade aromática menor, embora respeite plenamente a tipicidade da casta. No início, minha garrafa mostrou notas algo sulfurosas que logo se dissiparam, dando lugar aos aromas frutados e florais, com uma boca macia, taninos macios e final frutado e de média persistência. Recomendo para os pratos de bacalhau que levem acompanhamentos de tomates ou pimentões vermelhos.

Ancelotta 2012: vinho extremamente calcado na fruta, exuberante no quesito, macio e refrescante, vai muito bem com aquela pizza do fim de semana! Em termos de coloração e corpo é mais intenso do que o Gamay e possui taninos mais evidentes e de boa qualidade, bem redondos como convém ou deveria convir ao estilo.

Além dos citados, eu costumo beber os muito bons espumantes, de método Charmat ou Tradicional, brancos ou em versão rosé, que é um grande vinho de entrada, que costuma fazer sucesso entre meus amigos que desfrutam da minha gastronomia, simples e direta, com alguns floreios estéticos discretos!

Enfim, sempre deixo claro que o vinho quando tomado como adjuvante de nossa alimentação, merece ser reconhecido por qualidades que não são as mesmas das regras da degustação técnica, usada em competições. Há muitos vinhos no nosso país que cumprem esta função, independente das premiações que possam vir a obter. O vinho é maravilhoso, porque possui seus nichos específicos, satisfazendo suas necessidades básicas e, volta meia, as mais hedonísticas também. Antes de pensar numa competição improfícua, esteja atento ao que a simplicidade pede! O lugar do bom vinho, é antes de tudo, à mesa!

Saúde!